Miguel Jesus (Gizzas): música e escrita

Encontrámo-nos numa Feira do Livro de Lisboa atípica e tardia. As gentes, apaixonadas pelas bancas ou apenas a passear pelo Parque, circulam de máscara, hábito já costumeiro. Conversámos sobre o recente lançamento de  Lugar para dois e sobre umas coisinhas mais…

Em anos transactos, trabalhaste na tua área de formação académica, a Economia, chegando mesmo a ser docente universitário e a trabalhar em multinacionais. Como foi deixar essa vida e passares a dedicar-te em exclusividade à música?

Não deixei, nem conto deixar nos próximos tempos. Manter uma atividade fora da literatura e da música é uma escolha que dá muito trabalho, mas também nos permite criar sem compromissos, sem a pressão do tempo. Criar por criar, que é a essência da arte.

Habitualmente há algum receio em trocar-se uma profissão mais previsível por outra que possa ser mais dada ao imprevisto e à sazonalidade, como as artes. Sentiste isso? Como reagiram as pessoas em geral a essa mudança?

Apesar de, como ter dito, não viver apenas da arte, em todas as áreas há receios. Se estamos de um lado criativo, temos o receio do dia seguinte, como o temos se estamos numa profissão mais “previsível”. Os medos são outros.

Desde novo que sentiste o apelo da música ou foi algo que se foi desenvolvendo ao longo do teu crescimento como pessoa?

Tenho a música em mim desde sempre. Como todos temos. Todos precisamos da música, todos a ouvimos, alguns fazem dela profissão, mas não significa que a amem mais. No meu caso, que sempre tinha sido rodeado de música (cantei muitos anos nos Pequenos Cantores de Lisboa), aconteceu um episódio curioso: com a minha evolução como economista, passou a tornar-se comum ter que fazer apresentações aos quadros da empresa onde trabalhava. E a minha timidez era um obstáculo. Como os obstáculos estão lá para serem superados, resolvi cortar o mal pela raiz de forma mais ou menos radical: decidi ser músico em bares, expor-me. Essa atividade obrigar-me-ia a ultrapassar o meu medo do palco. Como o fez.

Em 2011 assumiste a música como profissão, tendo lançado o álbum Tempo ganho. Como defines a tua música, que influências deixas transparecer? A entrada oficial no mercado, após anos de actuações em bares, foi ao encontro do que esperavas?

Esse arranque foi feito de muitas emoções. Algumas boas. Muito boas. Mas rapidamente aprendi uma grande lição: mais do que o talento, é a resiliência que faz um artista. É normal um artista ouvir “nãos” às suas ideias e concretizações. Nove em cada dez respostas são “nãos”.

As minhas influências são muito latas. Sou influenciado mais pelas histórias do que pela música. As músicas que mais me marcaram tinham poemas que me fizeram abanar.

Em 2014 lançaste o Até que o mar acalme e em 2017 O dia em que o mar voltou. Ambos são simultaneamente música e romance, cd e livro, numa simbiose que acabou por se tornar a tua marca própria. São duas áreas que te apaixonam por si só, independentemente, ou consideraste que poderiam exercer um poder promotor e complementar uma da outra? Sentiste que essa ligação converteu os teus ouvintes em leitores ou vice-versa?

A entrada no mundo da literatura acabou por ser um passo natural para quem se sentia tão ligado aos poemas. Diziam-me muitas vezes que eu escrevia melhor do que cantava e acho que concordo com essa afirmação. A literatura é uma arte que exige mais. Exige mudanças muito profundas em nós, mais do que a música. Exige que passemos a viver grande parte do nosso tempo fechados em mundos que criámos e que temos que trazer à luz do dia. Fecharmo-nos em nós para criar algo para os outros. Mas para que os outros o sintam, temos que, afinal, estar expostos, abertos. Uma incoerência que congemina dentro de nós, muito difícil de gerir, mas que se entranha. A escrita tem-se tornado normal em mim, como uma casa, a minha casa. A música é o meu ritmo. Juntar as duas coisas é como criar um lugar muito único, e aí eu sinto estar onde pertenço. E são, por isso, a minha marca.

Nem todos os meus ouvintes são meus leitores, nem vice-versa. Gostamos de um cantor pela sua voz, e se por vezes esse cantor altera a sua voz, escrevendo em vez de cantar, podemos sentir-nos traídos.

Em tempos de Covid, acabaste de lançar um novo cd-romance que se denomina Lugar para dois, com um nítida influência africana. Em termos de espectáculos, este ano revelou-se muito castrador. Como tens promovido este novo cd-romance?

Os espetáculos que tive que cancelar ou adiar este ano eram ainda referentes ao disco e romance anteriores. Agora estou a lançar o novo romance, é tempo de disfrutar da história e dos temas musicais que a envolvem. Depois será outro tempo, o de arrancar para os palcos nacionais com novo espetáculo, baseado, esse sim, neste romance que agora foi lançado.

Na música és conhecido como Gizzas, nome artístico que advém, penso eu, da leitura anglicizada do teu sobrenome Jesus. Esse foi também o nome artístico com que assinaste os teus dois primeiros romances, no entanto neste último apareces como Miguel Jesus. A que se deve essa alteração? Coexistirão um Gizzas na música com um Jesus na escrita?

Há muitas explicações para essa pergunta. Deixo uma: por vezes vamos demasiado longe à procura de nós próprios. Talvez sinta que estou a voltar para casa.

Nos teus vídeo-clips participam habitualmente actores conhecidos do teatro e televisão. Procuras a integração das várias artes no teu trabalho, funcionando como agregador de talentos?

Estou longe de ser um agregador de talentos. Sou antes um admirador de talentos, e talvez por isso goste de criar em conjunto. Mas sim, procuro a integração das várias artes no meu trabalho, o anterior cine-concerto, onde se integraram o cinema, a música e a literatura, foram apenas o arranque de uma ideia que vai ganhar asas já no próximo concerto. Vai ser surpreendente, estou em crer.

O que é que ainda não fizeste e gostarias de fazer em termos musicais?

Ainda não fiz nada, mas já fiz tudo. Porque ainda me falta crescer muito. Mas quando encontro um caminho que faz sentido, não paro enquanto não o atinjo. De forma prática, já sei exatamente que barreira vou quebrar a seguir, para que o meu caminho enquanto artista continue a alargar-se. Já sei, mas ainda não posso dizer.

Há alguma questão a que gostasses de ter respondido mas que não te tenha sido feita?

Talvez uma: Que legado gostavas de deixar um dia? O problema é que, porque estamos sempre a evoluir, essa resposta nunca pode ser dada.

Março Acídulo (agora publicado na totalidade)

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Olho-me no espelho. Carinhosamente olho-me, como a compensar-me pelos últimos tempos. Faço-o com meiguice, sem julgamento. Ou julgamento sem dor, como quando estamos sob o efeito da anestesia local e sentimos os movimentos, o toque, a textura do tecido, mas não a dor que nos invade no incisivo corte da lâmina. E eu quero, sobretudo, suprimir a dor, enquanto dou continuidade ao movimento, enquanto ouso não me render ao desgosto, enquanto insisto em manter-me viva. Apesar de.

Reparo em rídulas que tenazmente se instalaram, como que apreciando o local em que resolveram permanecer. Bastou uma vez. Não precisaram de novas provas, de repetidas experiências, de acumular de memórias, de idas e retornos, tal qual viajantes sem rumo certo. Sedutor numa primeira e única abordagem. Decidiram permanecer. Chegaram, gostaram, quero eu crer, nesta meiga aceitação daquilo que não posso negar, e assentaram arraial. E eu pouco pude fazer para evitar.

Atento no pescoço que arredonda na base. Aí tiróide de mim. Quando isto acabar, marcarei o novo exame, ecografias adiadas, vigilância médica suspensa, em prol de um evitado contágio que penso que não me contagiaria, de forma grave, pelo menos. Morrerei da carência de prevenção causada por hipotético risco, e não dum vírus ameaçador. Ironia é isto, acho eu.

O peito reflecte no espelho a dois tons, demarcadas marcas de sol. Um decote moreno marcado num início de seios brancos. O ventre que abaula, progressivamente, na inactividade de horas sentada frente a um computador. O rabo espalmado, as pernas a ganhar tom, fruto de minutos diários de sol, num mimo disfarçado de cuidado, na busca da vitamina D. É o que digo a quem me vê na varanda, calças arregaçadas, como se disso dependesse o meu teor de clorofila, fotossíntese do meu humor. E eu acho que depende. Aliás, tenho a certeza. O sol que me cega, que me aquece, que me traz a indolência de não pensar, quando os olhos semicerrados se cansam das letras que se agigantam, e começo a ler sem sentido, sem memória do que li, num ler mecânico e sem sabor, lendo uma e outra vez parágrafos, sem ideia. Aparto-me de mim, fecho a porta da minha mente, ponho um aviso de volto já, isolo-me do mundo.

Faço o mesmo quando, enfim, acabada a vistoria, entro na banheira. A água cai, em vão, perdida, sem uso, até que aquece e se torna útil. Tento não pensar, e focar-me no movimento concêntrico antes de desaparecer, mas não consigo. Faço paralelismos, lembro-me de gente que conheço, gente que não aquece, que não chega a cumprir o intento para que nasceu. Tenho noção de que não deveria partilhar a minha intimidade com tais pensamentos, com tais seres, que aprendi a não respeitar. Procuro concentrar-me. Retomo o foco, seguindo os conselhos alheios, sublimar o meu feminino, viver o agora. Atento nos aromas que se misturam, nas texturas do champô, do gel. Emulsiono lentamente os cabelos. Acaricio a pele que me serve de morada. E por dois segundos concentro-me a criar memórias olfactivas. Uma memória antiga surge, aquele gel de banho que usei, um vulgar gel, mas que me leva além sempre que o abordo no supermercado. Inebria-me, leva-me longe, bem que me disseram que o olfacto é o sentido que tem mais memória. Nunca mais o comprei, aquele gel de tom arroxeado, flores fortes, não querendo sobrepor memórias. Criar sensações em camadas pode ser um risco, e esta está devidamente fossilizada, não a perturbemos. Este, que agora uso, é bem melhor. Acho que fiquei requintada com o tempo. Há que ver vantagens no que é inevitável, se nada podemos fazer para evitar este processo imparável que é o tempo.

Saio, enfim, do duche. Aplico creme, generosa e ternamente. Insisto nas zonas mais secas, como a provê-las de alimento, como se o cuidado corporal se manifestasse directamente no fortalecimento do meu ser. Os actos mecânicos, os rituais, ajudam a conter uma realidade ansiosa. Foi o que li. Concordo. Não há espaço para filosofias enquanto estamos a espalhar a textura. É uma forma de me manter ocupada, fazendo-me bem, voltando ao básico do ser, ao corpo que me serve de invólucro. Durante muito tempo não lhe dei a atenção devida. Contei sempre com ele, e ainda assim ele não me falhou. Nunca me abandonou, comportou-se sempre como era esperado, vontades, ritmo, energia. Agora que o tempo cresce por entre as tarefas, como plantas selvagens que prontamente respondem a chuva e sol consecutivos, resolvi compensá-lo. E enquanto espalho a loção, em nada mais penso, senão no acto de espalhar, imaginando células carentes a absorver o mimo que lhes dou, consciente das suas necessidades. Ou das minhas, talvez.

Vir para casa não foi fácil. Adiei o mais que pude. Desculpei-me com as obras da casa de banho, que tinham mesmo começado. Valeram bem a pena. É certo que não completei a decoração com novos elementos, toalhas, copo, dispensador, que as lojas estão fechadas. A seu tempo. Convenci os do escritório que não poderia trabalhar ao som de antimelódicos berbequins. Que não apreciava os melodiosos pneumáticos. Que não seria viável respirar ares impregnados de pó. Ou que seria impensável concentrar-me com homens que ouvem música de gosto duvidoso, enquanto medem distâncias e criam massas e verbalizam de forma gritante. Arrisco dizer que não sei exactamente porque o fiz. Ou sei, mas custa-me reconhecer. Há ocasiões em que duvido de mim. Penso que não serei capaz, que um qualquer erro tecnológico porá em causa o meu brio profissional e eu não saberei resolver, e já me imagino a tirar o pijama a meio da tarde e a correr para o escritório, como se o mundo acabasse sem aquele relatório. Ou então não foi nada disso. O mundo começou a entrar em pânico, e eu, cuidadosa, mas sem exagerados considerandos, não sei se subsistiria sem a minha meia-hora de condução à beira-rio.  Sem o meu sol do meio-dia. Sem a caminhada junto aos navios que aportam no cais. Sem descobrir nomes engraçados nas embarcações que descansam, mais do que navegam, na marina. Sem extravasar as paredes da minha casa. E aí, em vez de me achar pouco capaz, julgo-me protegida pelos deuses, imunidade garantida. Ai Gémeos, a eterna oscilação entre extremos.

Ainda não tinha vindo para casa, e já me tinha começado a desligar do mundo. As notícias, repetidas, alarmistas, entravam em catadupa por tudo o que era tecnologia: televisão, rádio, jornais, redes sociais. As pessoas, de longe, quando se cruzavam, atentavam em cuidados mil, distância, máscara, lenço, tosse, temperatura. A conversa não saía do mesmo, qual carrocel assombrado. Arredei-me dos anunciadores do caos, dos apavorados. Afastei-me igualmente dos facilitadores. Encontrei na pandemia motivos óbvios para não aceitar convites que não me interessavam, e eles próprios caíram em desuso, extinguiram-se, na mesma proporção dos abraços daqueles a quem quero bem. Cansei-me dos exageros dos memes e dos links de mortos / vivos / recuperados. Aborreci-me com brincadeiras que na 2ª rodada já não tinham sumo. Deixei de achar graça a coisas corriqueiras, dir-se-ia que era preciso muito mais para me acordar o riso. Dei por mim a reparar em mim, agora menos distraída com o mundo. Na hora de almoço, isolava-me. Lia, vício que me acompanha desde os bancos da escola. Escrevia, vício recente, que acolhi com resistência. Acontece muito a quem lê bastante. Há tanta coisa boa, que se tem pudor em dizer sequer, que se escreve. Escrever pode ser tão só impregnar a folha de gatafunhos. Ou pode ser arte. Não domino o engenho da diferenciação, escrevo para libertar a alma, que tenho 40 anos em pendente de sair, de ganhar mundo, tanto que pensei, tanto que compus apenas em palavras dispersas na minha cabeça, em sentimentos que não pude exteriorizar. Precisei de um empurrão, como parece que preciso sempre, para me fazer ao mundo. Não tenho a presunção de ser admirada, contento-me em alinhar as palavras, em perfeito espelho, ou simetria, do meu sentir, do meu pensar. Nas poucas redes sociais que ainda seguia, surgiu um desafio, escrever sobre a quarentena. O que há a dizer sobre isso, que já milhares não o tenham feito? A dificuldade do isolamento, ou o percebido prazer neste, o retorno ao essencial, as logísticas caseiras, as ansiedades, os medos, os comportamentos arriscados, o que haveria de novo, se de baixo do céu nada é visto que não o tivesse sido já antes. Teclei sem filtro, sem pretensões, liguei o tradutor de mim. Escrevi, num ímpeto só:

Evasão

 Todos os dias as mesmas rotinas: limpeza, distância, contenção.

Todos os dias o foco nas notícias: contaminados, curados, mortos.

Todos os dias a ligar aos meus, aos que prezo, aos que amo.

Todos os dias, sabe-se lá por quantos mais dias…

 

Saio para o trabalho, e a cidade está deserta.

Como na música dos Ornatos, afinal.

“Ouvi dizer

Que o mundo acaba amanhã

E eu tinha tantos planos para depois…”

O mar não fechou, por isso saio, cautelosamente.

No porta-luvas um salvo-conduto para o trabalho.

Sigo paralela ao rio, nessas estradas vazias.

Impassível, o Tejo corre, os pássaros voam.

E eu, condutora em quase domingo, sigo,

Enquanto saboreio o som da natureza em descanso

Dos carros, do barulho, das vociferações humanas.

Entro num edifício cheio de ausências

Desinfecto novamente as mãos.

As tecnologias permitem-me trabalhar,

Coloca num ecrã os rostos e as vozes

Com quem usava partilhar os dias.

Assim passo o dia, na solidão física,

No contacto de espírito e almas.

 

Almoço o que trouxe de casa,

Que já não há onde comer.

Nem restaurantes, nem cafés.

A máquina dispensadora da empresa

Há muito que prescreveu.

 

Saio para a rua, só, entro no carro,

Naquele local, ao sol, escolhido

Criteriosamente na vastidão do parque.

Acondiciono o corpo no banco reclinado.

As pernas esticam-se, procurando o sol.

Embalo a alma com as folhas do livro.

 

Sigo adiante, inebriada pelo vento

Que trespassa as janelas.

Adenso-me na trama,

Distraidamente afago o cabelo,

Reponho o desinfectante.

Levam-me ao Tarrafal,

Sinto o calor húmido, as águas fétidas

As agonias dos homens que sofrem.

As mulheres de crianças nas costas

Que trabalham por entre o pó.

A dor, a doença, a involuntária contenção.

 

Fecho o livro, incapaz de abarcar mais desgraça.

Fecho os olhos, foco sem pejo,

sem medo, directamente o sol.

Encandeada, face a ruborizar,

Deixo que o calor me inunde,

Me relaxe, me leve sem resistência,

Numa consciente e progressiva inconsciência,

Em que o som se afasta, languidamente

O discernimento é paulatinamente ofuscado ,

Como naqueles dias de praia, em que me estendia ao sol,

O astro queimando-me a pele, eu numa indolência crescente,

Saboreando a onírica e tão desejada, evasão.

  

O texto foi aceite e publicado. Há poucas coisas que me realizam tanto como escrever. Deixou de me preocupar se pensam que falo sobre mim. Terei assim tanto interesse, ou serei tão limitada que só saberei falar de mim, num enjoo narcisista? Não, não me importa o que pensem, o cérebro, ou será o coração, compõe o puzzle, peças que surgem de todo o lado, de tudo e do nada, vivências minhas, emoções em segunda mão, histórias que presenciei, ligações múltiplas, sinapses cerzidas por mim. As mãos disparam, num rápido obedecer. Corrijo, altero, substituo, emendo e releio. Era isto. Fiel.

E então, um dia, tive que vir para casa, esgotaram-se as desculpas. Arquei com a parafernália, computador e afins. Improvisei um escritório na própria casa. Abeirei-me da janela. Ultimamente medimos tanto as distâncias de segurança, que já quase tenho olho de costureira, e atentei: meio-metro.  Alindei o recanto, tornei-o trabalhável, meu reduto das 9 às 17.30. E a vida mudou. E sem pensar nos receios que me assolavam a mente, comecei a saborear o meu próprio ninho.

Passei a acordar em manhãs já chegadas, sem madrugares, sem luzes acesas no breu matinal. A cadela acostumou-se a dar mais uma volta na cama, vendo-me tão adormecida. E então saíamos as duas, num fugidio passeio, desencontrando-nos das vizinhas outonais, que nos travam a cada passo, com conversas de circunstância. Voltamos, ligo o computador, ajeito o cortinado conforme a luz. Gosto de olhar lá para fora. Troquei a vista do rio pela vista do jardim, que se povoa de gente a passar, de cães e donos em passeios cada vez mais numerosos. E de cães mais numerosos, também. Não sei se há mais cães agora nesta rua, ou se saem mais. Nos tempos de escritório saio cedo, chego pelo fim do dia, não sei o que fazem durante a minha ausência. De quando em vez, os pássaros voam rasante, a caminho de algures. Outras vezes param no mármore da varanda, a bicar as asas, a cuidar da plumagem. E eu tiro os olhos do computador, distraída por um movimento de canto de olho, deixo os registos marítimos e penso na liberdade destes seres, que se movem alheios à pandemia, alheados dos pânicos, previsões, projecções. Mais que isso, livres das próprias expectativas, lógicas, coerências.

Ainda não digerira o problema. Estes tempos de clausura vieram em boa hora. Afastada do foco da acção, era quase uma distância de segurança, forçada, mas apreciada. Acabaram-se as discussões, os mal-entendidos, as agressões verbais. Tinha-me excedido, cavado até ao fundo de mim, em busca de argumentos, evidências, formas claras de expressão. Obviamente que não estava a ser clara. Notoriamente não estava a ser eficiente na minha comunicação. E eu, malabarista amadora de palavras, não conseguia afinal passar a mensagem, não estava a conseguir coordenar uma frase (uma flecha?) que lhe mostrasse a minha clarividência. António permanecia dormente. Sentia agora a dor dos embates contra a parede, das nódoas negras das lutas inglórias. Acusava agora, no meu espírito, o esforço sem sentido de fazê-lo crer no seu próprio valor. Era tão evidente… e contudo, tendo pernas que o levassem ao fundo do quintal, permanecia afoito nas pernas do dono, qual caniche, que grita ao mundo os seus intentos, de forma ruidosa, mas era incapaz de arriscar por a pata fora dos 2 metros de trela que lhe permitiam. E ele agradecia, como se devesse ao mundo essa magnitude de não o deixar evoluir.  De o proteger de usar esse imenso talento. Essa grandeza de alma de lhe cortar as patas, em prol de um ego de dono envelhecido e carente de companhia. Quem o acompanharia, se ele se apercebesse do seu real valor e puxasse da trela, rompendo-a, fazendo-o cair na sua solidão, enquanto ele corria, liberto e livre, como o Lucky Luke, em direcção ao por do sol?

A grande vantagem de não ser profissional da escrita era poder escrever sem limitações. Sem prazos, sem limitação de textos, sem restrição de temas. Mais do que isso, não sendo o ganha-pão, poderia fazê-lo à rédea solta, vomitando sentimentos, sensações, pensamentos, sem freio, sem receio de julgamentos. Não gostam do que escrevo? Que importa? Acham desadequado? Que interesse tem? Não me importava. Em tempos o António ressaltara essa minha característica de forma elogiosa. Que eu não tinha medo, que me expunha, e que se corresse mal, paciência. E eu sou assim, eu sei que sou assim, no fim do dia tenho o meu ninho, limpo as feridas e cicatrizo. Não depender de ninguém dá-me essa liberdade. Autoiniciativa de ser e pensar. Já passei por pior, e estou cá. Insisto, resisto, sobrevivo. Incoerência é ele conhecer o conceito de independência moral e não o aplicar em si mesmo. Não é um défice cognitivo. Mas é um défice de quê, afinal? A pergunta rodava em círculos, como a água que rodeava o ralo, em progressivo, mas lento aquecimento, e que se esvaia sem função. Como ele, afinal.

Na tempestade do sentir, interrompi o trabalho, e furiosamente teclei:

Tens razão.
Que culpa tens tu de não veres o que eu vejo?
Que culpa tenho eu, de ver o que tu não vês?
Por muito tempo, tempo demais, abusei de mim.
Por excessiva persistência, descomedido esforço,
Esgotei-me em tentativas de te transmitir
Todas as evidências, todos os vislumbres,
Tudo o que de tão óbvio, meu Deus,
tão óbvio, me era mostrado.
Da extrema grandeza que vejo onde tu
Só vês paupérrima, depauperada pobreza.

Pelejei por ti, para que te recuperasses.
Fortaleci-me numa luta que julgava meritória,
Tive a ridícula soberba de te trazer à vida,
Retirar-te do coma sensorial em que vives.
Sobrecarreguei-me com as tuas dúvidas,
A tua fraca autoestima, o teu próprio desamor,
A tua miopia emocional, a própria sabotagem de ti.
Esquartejei-me várias vezes nessa insanidade.
Tenho os meus braços pejados de cicatrizes.

Primeiro sussurrei-te, depois falei, por fim gritei.
E tu, pescoço desarticulado, incapaz de te olhares,
A ti próprio, e veres aquilo que eu vejo, que outros vêem…
Cérebro apático, incapaz de reinventar o puzzle
Entre o muito que vales e o pouco que te fizeram sentir,
Não acreditas nos que te querem bem,
Nos que te apreendem e te visualizam
Por detrás dessa baça e arredada figura,
Nos que vêem nos teus sapatos um pó de estrelas,
Onde tu vês tão só terra suja, lamacenta.
Nos que insistem que sejas astro,
Brilhante e imponente
Quando tu queres apagar-te,
Passar despercebido pelas horas,
No conforto do adquirido, sem arriscar,
Sem dar uso ao mérito que tens,
E onde escondeste a coragem? Onde??
Sentindo-te sempre em dívida para com quem nada vale,
Como se não soubesses o que vales, o que tens em ti.
Começo a acreditar que não sabes.

Ocorreu-me que és uma excelente pessoa,
Mas não praticante, como alguns religiosos,
Na inibição de seres quem és.
Teoria de ti, sem uso nem partilha.
Podias ser nobre, mas contentas-te em ser sem-abrigo.
Por uma opção que não entendo, não entenderei.
Como se não tivesses linfa ou ar, que te sustivesse.
Como se fruto sei lá eu de que passado,
Tivesses perdido a capacidade de acreditar em ti.
Como podes não te ver?!

Percebi que não me posso matar a salvar um suicida.
Muito menos que não posso permitir ser agredida por tentar salvar-te,
Como se te estivesse a sujeitar ao pior dos teus sofrimentos,
E vejo agora que talvez o tenha feito, afinal,
Que é olhares para ti, sem bengalas, a cru, a nu, desarmado.
Talvez um dia percebas que a mesmice diária te lima e extermina o dom.
Talvez assim, reduzido voluntariamente à mediocridade,
Te sintas mais acompanhado.
Talvez assim, autocastrado do próprio mérito,
Te enquadres mais num mundo avassalador
Que procura destruir os que ousam ser diferentes,
Os que ousam a autenticidade.
Porque serás mais um entre os parasitas,
Invisível e aceite entre a indistinta multidão.
Confortado na mediania,
Longe da tua potencial e eximia essência
Que anulas, por falta de coragem,
Consistentemente em cada dia.

Mas tens razão.
Não posso obrigar-te a ver, muito menos a brilhar.
O arrependimento é um sentimento solitário.
Como o são algumas lutas.

 

Publiquei na minha página de autora. É interessante como as pessoas se identificam com os textos alheios. É curioso como existem paralelismos nas vidas de tanta gente diferente, em tempos distintos, mas sentimentos comuns. Todos parecem ter um António que os decepcionou, não fazendo uso dos talentos que tem, subjugando-se a terceiros, tantas vezes perversos, em troca de uns biscoitos do possessivo dono. E em tom de conclusão, todos dizem que largue o assunto, porque acham, como sempre, que o texto é sobre mim, ainda que seja também sobre eles.

Dizem que chegaram a essa conclusão depois de tempos de contenda com os respectivos Antónios. E não é também de estranhar que, quando estamos atentos a um determinado assunto, parece que os indícios nos acompanham, insistindo num ponto que teimamos em não ver ou adiar. Como quando compramos um carro do modelo x e, de repente, notamos todos e cada um na estrada, no estacionamento, nas garagens, quando na semana anterior aparecia um aqui outro além. Caiu-me no colo uma memória que tinha publicado no Facebook anos antes, uma citação de Vergílio Ferreira: “Os outros. Não lhes abras a porta. E esquece, esquece. Têm o seu mundo de intrigas, estratégias, parceirismo, glórias fúteis, veneno. Sê tu apenas. Esquece.” Caiu-me no goto. Era uma publicação antiga, que parecia germinar lentamente no meu cérebro. Altanaria minha, o texto foi escrito para mim. Para aquele momento. Verifico que quando o publiquei nem conhecia, sequer, o António. Publiquei porque gostei. E, no entanto, presunção minha, aquelas palavras vinham ajudar a sanar a questão. Não me deveria preocupar com os outros. Vanglória minha, vaidade de quem se sente forte. Tomara eu, tomar conta de mim.

Os dias passam, entre horas de trabalho, em que me dedico mais do que quando estou no escritório, sem paragens para café ou sem ser interrompida por quem quer que seja. Quando posso, vou à varanda, apanho sol. Eu, o livro que me acompanha, e a Rita, minha cadela que me segue a cada metro. Ando a ler “Mulheres” de  Bukowsky. Sempre apreciei pessoas incómodas, escritas agrestes, mas até ao momento, entre vómitos, bebidas, inúmeras mulheres a quem perco o nome, sexo casual e vulgar, ainda não apreendi a alma do livro. Tinha expectativas – lá está a repetição do erro – quando li o “Então queres ser escritor?”, e agora insisto em busca de algo que não sei se existe. Procuro a epifania que parece adiar-se no tempo. Outras vezes vamos à rua. Cruzo-me com o Manuel, homem-veículo, cadeira-de-rodas, que passeia a sua cadela. João, o reformado que lança a bola ao seu cão. Mariana, que passeia o canito que foi buscar o canil. Falo com a Manuela, sempre à janela, com a sua gata. Nos fins de tarde, fazemos um passeio maior. Cruzo o bairro, vou além. Pelo caminho contemplo as flores bravias que vingam em cada pequeno grão de terra: papoilas, malmequeres. Algumas outras mais requintadas, flores de jardim. Sempre preferi as flores bravias, que se bastam e florescem onde querem, não onde as plantam. Que se organizam entre sol e chuva, que não pedem autorização nem esperam validação para nascer. Onde querem. Onde lhes aprouver a vontade.

O dia útil cresceu por entre os afazeres. Duas horas de caminho diário reabilitadas. Sono alargado. Hora de almoço de relaxamento, por entre uma roupa que se estende ou se apanha, uma sopa que se adianta. O tempo é generoso comigo, permite-me novas iniciativas. Por todo o lado se instauram palavras de que é um tempo único, que devemos aproveitar para recolhermos ao interior de nós, para sublimarmos os afectos, para revermos opções tantas vezes automáticas. Leio muito mais. Escrevo muito mais. E penso, também, muito mais, num tempo mental que se abriu por entre as obrigações, saindo do rotineiro dia, gerando um oásis em que as ideias florescem. Mas eu não quero pensar. Pensei já tanto, penso constantemente, tenho que parar de pensar, e, no entanto, só me vêm à memória leituras de outras épocas que ecoa ainda em mim… Pessoa, para quem pensar era não viver, era destruir a realidade, ressoa em mim. Não penses. Não penses, sente. Esforço-me, na inquietude de pensar, porque penso em não pensar. Pensar no que comer, quando se está de dieta e não se deve pensar em comer. Aula de meditação, cujo objectivo é libertar dos pensamentos, mas em que penso ainda mais. Ou yoga, que fiz uma vez, e me deixou nervosa. Foi nessa altura que comecei a pintar mandalas. Dizem os gurus, exercitar o corpo, focar o olhar, desligar a mente. Esforço-me, quase em vão. E quando sinto, quando me sinto, urge em mim uma vontade bulímica de doces, e mais uma vez Pessoa me desafia: Come chocolates, pequena, come chocolates.

E nesse dia, enquanto devorava chocolates, justificada pela poesia, que isto é preciso é estar atento a possíveis alegações, a mensagem chegou. O nome que outrora me fora agradável estava entre as demais mensagens, algumas de amigos, outras profissionais. Não abri. Os últimos dias em que faláramos tinham sido tão desgastantes, depois veio o deserto, nada aconteceu. Não poderia vir nada de bom naquela missiva. Pior, nada de novo, esgotadas todas as lógicas, racionalidades, abjetas objeções. Durante semanas esperei por uma mensagem, algo que me devolvesse a esperança no retomar da normalidade. Na tomada de consciência. Num pedido de desculpas. Não aconteceu. Escrevi um parágrafo aqui e além. Apaguei vários, enviei um ou outro. A resposta não veio. Olho novamente o remetente, adivinho o tamanho pelas informações de capa. É pequena, presumo que não chegue para um pedido de desculpas. Ignoro.

Mudo de roupa, visto as calças e a camisola da pandemia, saio para a rua, alargo o passeio canino. Ligo aos amigos, partilhamos receios e novas rotinas. Depois, procuro distrair-me com quem por mim passa. Se conheço, falo. Se não, invento-lhe uma vida. A minha formadora de escrita mandou-nos um dia para a rua, e disse: escolham alguém que passa, descrevam-no, ofereçam-lhe um personagem. E nesse dia, em pleno Chiado, entre o Camões e o Pessoa, atentei num homem de chapéu que passava. E generosamente construi-o. Hoje construo-me a mim, distraindo-me do facto de ter uma mensagem para abrir, mas a que resisto. Não me sinto preparada. Ainda não.

Ao escurecer volto a casa, e para evitar tentações fecho o computador. Desligo também o telemóvel. Estou apenas eu, sem os outros… “Os outros. Não lhes abras a porta.”. Presenteio-me com um filme. Não me entusiasma, mas são horas em que cumpri o intuito de não abrir a missiva.

Tomo mais um banho, imaginando que os meus problemas descem ralo abaixo. Visualizar, imaginar o movimento, soprar para o ar, expirar com toda a força, apressando a descida. Teorias é comigo. Sei-as todas. Inteligência emocional, concentração, foco, o presente, o aqui, o agora. Mas a prática mostra-me que falho algures no percurso, e quebro a intenção com uma fraca e insuficiente praticabilidade. Talvez precise treinar mais.

E dias depois, sem a mensagem ter sido aberta, veio outra. Desta vez, do manipulador. Nunca me escrevera. Trocáramos algumas palavras circunstanciais, muito antes de eu me ter apercebido da humilhante ligação de ambos. Da conexão que me fazia ter vergonha alheia. E de mim própria, sempre tão perspicaz, mas neste caso tão distraída. Abri. Li. Não respondi.

A mensagem do António continuava no mesmo lugar. Cheguei mesmo a apagá-la sem querer, colocada entre publicidade não desejada. Desígnios do Universo? Não sei. Recuperei para o inbox, mas não abri. Não me fazia falta. “Come chocolates, pequena, come chocolates”.  E enquanto arredondava as formas, expelia o fel que me ia na alma. Agredia o teclado em ritmo rock, sem pontuação ou vírgula, num enjoo que nos leva a racionalidade. Pensaria depois, pontuaria depois.  O simples acto de desancar as teclas ajudava a libertar a minha ira.

 Fingidor

 Sei que há quem não goste de mim. Vejo nisso um certificado de autenticidade.
Não procuro agradar a todos, isso seria não agradar aos que valem a pena.
Seria também não me considerar digna de apreciação, precisando fingir o que não sou.
Não quero saber. Gostem, não gostem, sou eu.

Aqueles que a todos querem agradar, cedendo em todas as dimensões, afastam-se de si próprios.
Procurando agradar a extremos opostos, optam pela média, esquecendo-se que o médio ponto dista tanto do êxtase como da nulidade.
Poderão até agradar a todos, mas por pouco tempo, vivendo na superficialidade, na falta de decisões, de escolhas. Amorfos de si.
Um fingidor não é frio que dê para fazer gelo, nem calor, que dê para fazer chá.
Não serve para nada. A única validade da palavra fingidor, é ter entrado no poema de Pessoa.

Nunca escrevo manualmente. O ritmo cadenciado, estampido, dá-me conforto. Em contrapartida, os garatujos que imprimia no papel demonstravam-me quão confusa estava a minha mente, ou pelo menos quão desajeitada era a minha mão. Ou como costumo dizer a brincar, letra de médica já tenho, só falta o curso. Não me venham falar na poesia, no romantismo de escrever em papel, se quando tento ler vejo o breu sem estrelas. Não me digam que é mais pessoal, quando, a cada correcção, e, portanto, falta de lealdade, necessito apagar e novamente copiar, abusando do meu pulso que já só escreve em requisições de serviços públicos, desabituado dos bancos da universidade e da escrita rápida.

Procurei sempre, nestes dias, fazer coisas novas. Os cursos on-line multiplicaram-se, e eu, finalmente decidi-me a dar oportunidade àquele curso de sexologia que uma amiga dava. A cumplicidade feminina tem muito que se lhe diga. Ora partilhamos entranhas, e somos solidárias, ora vemos uma inimiga em cada esquina. Nisso os homens são muito mais coerentes. Não têm demasiadas expectativas, e tão depressa discutem como vão juntos aos copos, sem dramas, ressentimentos, arrependimentos ou amargos de boca. Não esperam nada, ousam o agora, nada mais importa.

Tenho uma amiga, Mafalda, dos tempos do infantário. A minha melhor amiga. Entende-me nos silêncios, no ritmo das mensagens, na ausência das mesmas. Conhece a minha história, começamos pelo desenvolvimento, sem necessidade de introdução. Acaba-me as frases. Puxa-me à frente quando tenho o raciocínio lento ou medo de o assumir. Puxa-me atrás, quando excedo a velocidade na ira e no descontrolo.  E vice-versa. E versa-vice. Elencamos erros e falhas, carinhosamente, porque nos importamos. Corrigimo-nos, sugerimos, contrapomos. De mulher para mulher. Raro, mas como na economia, quanto maior a raridade, maior a valência.

Ousei ser optimista, e achei que poderia ter duas amizades desta grandeza. Tola que fui, já é tão raro ter uma que dure 40 anos, quanto mais intentar numa segunda. Tínhamo-nos conhecido num tempo em que ambos começáramos a escrever. Salutarmente desafiávamo-nos. Líamos, de forma crítica, os textos um do outro. Recomendávamos temas. Fazíamos planos, apoiávamo-nos. Crescemos juntos. Atravessamos rios, saltando de pedra em pedra, de revista em revista, de antologia em antologia. De concurso em concurso.

Passaram alguns dias, entre horário de escritório, passeios caninos, sonos generosos, séries e leituras em dia.  E eu, cada vez mais forte na minha intenção de não abrir a mensagem. E quando eu já quase me esquecia dela, porque se não me fez falta até aqui, seguramente não fará, como móvel colocado no sótão, para inaplicável  uso futuro,  recebi uma terceira, de um amigo de ambos que conhecia pouco mais do que de vista, com a conversa mais despropositada, do zero, do nada, a querer saber de mim. Sem paciência…. O que as pessoas fazem quando não sabem o que se passou, mas querem saber. Quem já não queria saber, era eu, incapaz de ver mais miséria humana. E o que é pior, voluntária miséria humana.

 A vida tinha-me permitido fazer um curso intensivo sobre narcísicos. Quando não conseguem convencer alguém do seu ponto de vista, sobretudo se este se opõe e tem opinião própria e diferente, tentam convencer terceiros da fraca validade do outro. Desvalorizando o outro, sobre o qual antes fizeram astronómicos elogios, só porque não o consegue fazer mudar de opinião. É o corriqueiro passar de bestial a besta. O homem que obedece cegamente, não permite que alguém não lhe obedeça. Falha inequívoca no perpetrar da manipulação. Sim, eu tinha-me excedido. Sim, não suportei ver a anulação de si próprio. Sim, tinha-me afastado, desistido de projectos comuns. Sim, tinha vociferado impropérios, na necessidade imperiosa de perceber como alguém que poderia chegar à BBC se anulava, se humilhava perante o dono de um jornaleco de distribuição gratuita, daqueles do correio, entre anúncios a mercearias e lojas de chaves,  dando a pata, rebolando, sentando a cada instrução, vindo a correr a cada chamada esganiçada. Mas não tinha de me justificar a terceiros.  Afastei-me apenas, segura de que aquele não era o meu lugar. Ainda sou dona de mim.

Dizem-me que devo confiar na minha sensibilidade, nos meus instintos. Leio sobre almas antigas, e acredito que ainda me falta muito a percorrer. Este péssimo hábito que tenho de me preocupar além da conta com aqueles de quem gosto, e me faz intervir, e alertar, e insistir. É um erro, eu sei. Uma soberba, uma vaidade. No limite, deixa de ser uma qualidade e converte-se num defeito. É quase como obrigar o outro a usar o seu potencial, ou pelo menos o potencial que eu vejo. Mais grave quando ele não o vê, ou talvez não o tenha, e eu veja fantasmas. Acuidade visual precisa-se. Um amigo propôs fazer-me um mapa astral. Resisti, como resisto a tudo que não domino e sobre o qual não tenho opinião formada. Forneci detalhes, local, mês, dia e hora. Gémeos com ascendente Balança. E diz-me ele que vivo em guerrilha… comigo, com os outros. Tenho uma energia excessiva, uma obsessão com a performance, uma empatia natural. Uma empatia natural que não sei travar. Sei-o agora. Aprendi-o nestes dias.

As mensagens continuaram, de supostos amigos que o entregam na bandeja da maledicência. Com amigos assim, ninguém precisa de inimigos. Quase tenho pena dele.

Pior do que se saber só, é a ilusão de ser amado.  Respondia com cortesia, mas sem detalhes. Que vidas vazias são essas, que precisam de novelazinhas ridículas? Os dias continuaram entrando numa estranha normalidade. Via televisão uma vez por dia, apenas, sem dramas, considerando-me segura neste terceiro andar virado para o jardim. Em cada dia, cada vez mais segura de mim, acarinhando-me, cerzindo as próprias feridas. Rodeando-me de gente com espinha dorsal. Não consigo respeitar os frouxos. Não consigo considerar os débeis. Distancio-me também dos narcísicos: não quero que concordem comigo, quero que tenham opinião. Que a defendam, que se defendam, afinal. Nunca fui popular, tenho sempre a ironia e o sarcasmo no canto da boca. Não sei simular um agrado. É por isso que muitos não gostam de mim, é por isso que os que me importam gostam de mim. Considero um factor de selecção. Nem todos têm a coragem de ser o que são. Nem todos aprenderam a desconsiderar a apreciação alheia. Nem todos preferem a dureza da verdade aos glitters da mentira. Orgulhosamente só.

Em breve terei de voltar ao escritório. Olho com uma saudade antecipada a varanda onde vivi aventuras literárias, enquanto carregava a minha bateria de sol. Penso nos passeios que não darei com a minha cadela na hora de almoço. Volto a olhar a roupa no armário que também esteve em quarentena. Recordo-me que os banhos vespertinos se tornarão matutinos. Lembro-me que existem brincos e maquilhagem, e sapatos de salto alto. E carro para se conduzir.  Escrevo uma crónica para a revista sobre o tema:

(…)

Não pude deixar de me rir um pouco da minha criancice, como se o facto individual de ter ou não batom fizesse de mim mais ou menos mulher, mais ou menos corajosa. Mas o facto, e a ciência comprova, é que cuidarmos de nós, gera uma série de hormonas de bem-estar, como a dopamina e a serotonina, e se isso dava um balanço ao meu sair da toca, não me parece que venha daí mal ao mundo. Claro que podemos achar que é uma futilidade, mas se o facto de nos mimarmos nos faz mais felizes, porque não? Não podemos é chegar ao ponto de achar que, quando se fala de Caixa de Pandora, se fala de um qualquer guarda-joias, mas isso não é futilidade, é ignorância pura.

Ao sair à rua, constato que o mesmo ocorreu com outras mulheres e homens também, que o tempo dos feios, porcos e maus já la vai. Pode ser uma forma de mudar o foco das preocupações e dar azo não só a sentir-se melhor consigo próprio, capaz de reagir a, mas também facilitar o relacionamento com terceiros, que cara alegre e agradável é sempre bem mais cativante e facilitador. Presumo que o alindar-se seria apenas uma forma de ganhar alguma segurança, sobretudo em tempos de crise, de acontecimentos negativos, medo e crise financeira. Mas não será um contrassenso, que quando há dificuldades económicas as pessoas gastem dinheiro com aparências? Trade-off entre crise e beleza?

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra alterou a sua produção industrial indo ao encontro das necessidades bélicas, mas a produção de batom nunca parou. Era até incentivado, de forma institucional, o seu uso pelas mulheres, para disfarçar a apreensão, mostrar dinamismo, tendo-se chegado ao ponto de comparar a importância do batom com a do tabaco para os homens. Status e bengalas de fraqueza, mas em bonito, embora com veios de algum sexismo. Historicamente, esta apetência para o incremento de compra dos produtos de beleza, segue-se sempre a épocas de alguma turbulência social ou financeira: Grande Depressão, Crise Asiática de 1997, Pós 11 de Setembro.  É inegável a sequência dos factos, pelo que a economia e a indústria da beleza efectuaram estudos em termos de comportamento do consumidor, tendo culminado naquilo que se designa por Lipstick Index ou Efeito Batom. Este índice, corroborado pelo fabricante Estée Lauder, atesta esta correlação entre as crises e a venda deste tipo de produto. Mas, como se explica esta ligação?

De facto, não se está a gastar mais. O que acontece é uma transferência de aquisição de bens mais caros, como roupa, malas ou sapatos, por cautela ou mesmo por falta de rendimento, para bens mais acessíveis, que permitam, no entanto, alguma melhoria de ânimo. Mal comparado, são como aquelas aquisições que fazemos em dias de neura, como se uns brincos resolvessem a nossa discussão com o marido ou o chefe. E ainda nos fazem mais bonitas. Assim, com menor culpa, obtemos a satisfação pretendida, que é animar os ânimos. E tudo à velocidade cruzeiro de aplicar um batom. Barato (há já de boa qualidade e acessíveis), rápido e eficaz.

(…)

Espraio-me em explicações financeiras em linguagem corrente. Introduzo o conceito de Revenge Shopping.  No fim, em concordância, preparo um batom para o dia seguinte.

Mudo o foco. Preparo-me para o retorno. Se até agora era bom dormir, será bom conduzir. Se até agora imperava o conforto, agora equaciono a beleza. Estes dias permitiram coser-me, reconstruir-me, puzzle que era brutalmente atirado da mesa, caído no chão, retalhado e perdido. Recolhi, peça a peça, refiz-me, restabeleci-me.

Não era a primeira vez que me unificava, e a cada vez, a certeza de que o conseguirei fazer sempre. Soltar amarras, ainda que doloroso, é libertador. Saber desistir. Saber afrouxar. Saber que sobrevivo. E isto era um problema para mim. Bazófia de mim, a ganhar força, como os comportamentos inadequados reforçados uma e outra vez que resultam. Aluno cábula que se usa da manha para passar exames, e cada um conquistado, vai robustecendo a solução, até ao dia, em falta profunda, que percebe que errou todo um caminho, e que terá que encontrar uma solução íntegra e válida.  E eu, tinha de ser minha amiga. Mais do que dos outros. Preocupar-me mais comigo.  Poupar-me às intempéries alheias, às lutas de outrem, e desconsiderar a minha pretensão de ir ajudar, qual adulto que corre a levantar a criança que vejo cair. Porque de facto ninguém me pediu, e a frustração, do que vejo e do que sinto, na inacção do comodismo, da falta de alma, da carência de ímpeto, é apenas minha. Proteger-me, escudar-me, salvaguardar-me.  A mim, que o doente acha-se sempre são.

Saio de casa. Sigo no meu carro, munida de álcool e máscaras, em paralelo ao rio. Com ele percorro o espaço, lado a lado, lentamente até ao mar. Aprecio a viagem, rio espelhado, aves que me sobrevoam, indiferentes. No radio, pontos de situação: infetados / recuperados / mortos. Depois, uma música, Hit the road Jack. Atiro ao mar uma folha quase branca, impressa de olhos fechados, com letras que não li. Com ela seguem os meus dramas, soprados sobre o papel, a cair na água. Reparo na folha, lentamente submersa, vendo as letras sumirem na incomportabilidade do papel que já não as sustêm. O vento revira-a, e as resistentes letras desaparecem, como se nunca tivessem existido. Sim por não, concluo em dueto: And don’t come back no more, no more, no more, no more.

Entrevista a Adriana Mayrinck, 2ºEncontro Mulherio das Letras Portugal 25 a 28 Setembro 2020

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O Mulherio das Letras foi criado em 2017 no Brasil pela escritora Maria Valéria Rezende. Pode-nos falar um pouco sobre este movimento e quais os objectivos do mesmo?

A Maria Valéria Rezende percebeu a importância e a necessidade de unir as mulheres do universo da escrita, comentou com amigas, que a apoiaram a criar um grupo no Facebook, forma mais fácil de mapear e convidar essas mulheres. Ela é a responsável por esse chamamento. Assim surgiu o Mulherio das Letras, um coletivo feminista literário, de autoras brasileiras com o primeiro encontro em João Pessoa, na Paraíba, onde reside.

O objectivo é reunir profissionais relacionadas à produção literária e cultural, de autoria feminina, para divulgar, promover e criar oportunidades de encontros para dinamizar e fortalecer o vínculo entre as mulheres envolvidas no universo literário, que se propõem a discutir questões da mulher nas áreas da literatura, arte e da cultura, além de causas sociais e todos os temas que envolvem a luta da mulher na sociedade. Três anos depois, percebe-se que é um movimento em progressão e que ocorre com diversos desdobramentos. Hoje, são mais de sete mil mulheres, que usam a palavra sororidade, como definição, nem todas são activistas feministas, mas trabalham no sentido de promover, através do uso das tecnologias de informação e comunicação, o empoderamento feminino não apenas como um direito humano fundamental, mas como base necessária para a construção da igualdade de género. (esse texto não é meu, já foi alterado por diversas mãos que acrescentam as suas percepções, inclusive as minhas)”

 

Este colectivo encontra-se em expansão pelo mundo. Em que países já se encontra presente?

O grupo até agora tem representatividade em quase todas as cidades do Brasil e também coordenação em Portugal, Itália, Europa e Estados Unidos.

 

Em Portugal o Mulherio das Letras surgiu por sua iniciativa e administração. Como tem sido a receptividade e adesão pelas escritoras de língua portuguesa e demais dinamizadoras envolvidas no meio?

Quando o Mulherio das Letras começou no Brasil, foi no ano em que estava me organizando para morar em Portugal, e tinha a ideia de trazer o grupo para cá. Tanto que no segundo Conexões Atlânticas em 2018, abri um espaço para o Mulherio das Letras do Brasil e muitas brasileiras participaram, além das residentes na Europa que apoiaram o projecto. Desde esse momento já tinha a intenção em criar esse intercâmbio entre as autoras lusófonas espalhadas pelo mundo, por isso, para não restringir, aceito participantes nascidas, residentes ou que visitam Portugal. E após organizar os novos rumos que a In-Finita tomou ao vir para terras lusas, resolvi assumir o grupo em Portugal.

O Mulherio das Letras Portugal é um coletivo feminino, espontâneo vinculado ao movimento Mulherio das Letras Nacional Brasil, mas de caráter autônomo e colaborativo, assim como todos os grupos do Movimento, mas tento seguir as regras e diretrizes, embora cada país e cada grupo tenha a sua particularidade, dependendo da cultura local.

A do Mulherio Portugal é uma mistura de fado e samba, tenho sido sempre muito bem recebida e apoiada em todas as iniciativas e só tenho de agradecer a todas que participam. As portuguesas são acolhedoras, generosas, é uma outra cultura, outra realidade, outra forma de vivenciar as situações, mas percebo que estão começando, mesmo que timidamente a se expressarem mais. No Brasil temos essa necessidade do coletivo, por que nascemos com essa marca deixada por nossas antepassadas e somos mais ousadas em marcar posições e expressar as nossas reivindicações.

Apesar de ser a responsável e administrar o movimento em Portugal, é um coletivo e todas são colaboradoras, e quem foge às regras, não fecho as portas, mas não convido para os eventos.

 

De que forma e através de que meios o Mulherio desenvolve o seu trabalho? Foram criadas parcerias por forma a alargar a amplitude de acção e chegar a cada vez mais mulheres? Como são divulgadas as iniciativas?

Eu tenho uma boa ferramenta ao meu favor que é a In-finita, pois há 30 anos sou produtora cultural e desde 2008 convivo com a poesia e a cultura lusófona. E o meu trabalho é esse, de divulgar a literatura, promover eventos (agora virtuais), criar oportunidades de encontros e trocas. A In-Finita é uma grande apoiadora e patrocinadora do Mulherio das Letras Portugal, pois tudo, por menor que seja, gera custos e muito trabalho. Temos o Toca a Escrever e o Toca a Falar Disso como apoio na divulgação, a Julia Mayrinck que assume todas as artes, e faz o projecto gráfico dos livros, além de ser a minha assistente na produção,  o protocolo da In-Finita com o Palácio Baldaya que abriu as portas para o Movimento com muita generosidade (devo a Rita Azevedo, todo esse apoio e ao Ricardo Marques – Junta de Benfica). Antes da pandemia, o Zênite Bar Galeria da Ana Paula Carmo, também virou um ponto de encontro, onde já fazíamos o Leituras de A a Zênite promovidas pela In-Finita e incluímos na programação o Mulherio das Letras Portugal.

Todas as autoras são divulgadoras e apoiadoras, participam dos eventos, dos encontros anuais e lembro que são sempre gratuitos. As coletâneas (fizemos a primeira em 2019 para celebrar o I Encontro em Portugal em março, edição comemorativa pelo Dia Internacional da Mulher) e manter as que estavam distantes integradas, são as únicas situações pagas e que tem valores irrisórios, apenas o custo de produção e envio, pois a intenção é dar mesmo oportunidade a todas as mulheres que escrevem. Além de muitos blogues e revistas literárias que divulgam as nossas iniciativas. Como a maioria é formadora de opinião e trabalha a escrita e a divulgação (em todas as suas vertentes, inclusive as compositoras), vamos gerando essas possibilidades, são muitas vozes e ecos que vão se propagando… E com essa força agregadora, vamos criando laços e fortalecendo os vínculos entre nós, além claro de propagar a escrita, a língua portuguesa, o sentimento e o pensamento feminino a muito mais pessoas.

E para pontuar, conto com parcerias da In-finita que abraçaram a causa e ajudam a fortalecer as ações do Mulherio das Letras Portugal:  Ser Mulher, Projecto Solidário – cancro de mama (Lídia Moura Lsm – representante em Lisboa – Adriana Mayrinck), Associação Mulher Migrante ( Ana Casanova Pinto – Suíça), Sonora Festival • Lisboa, Portugal (Coletivo das Mulheres Compositoras – Isabella C. Bretz – Lisboa), Zênite Bar Galeria, a NTR Network rádio, Awaking Connection , programa Amantes da Poesia da Maria Isabel Rodrigues na Popular Fm e o programa Livro Aberto da Ana Coelho na Rádio Alenquer.

Para este ano estava previsto um encontro em Lisboa (1 a 3 maio), onde ocorreriam painéis de discussão de temáticas diversas, bem como o lançamento da colectânea anual, que, contudo, foi cancelado devido à pandemia.  Dada a incerteza dos próximos tempos, será realizado um evento on-line, de 25 a 28 setembro. Pode falar-nos um pouco sobre isso?

O II Encontro Mulherio das Letras Portugal, previsto para 1, 2 e 3 de maio de 2020 no Palácio Baldaya (Centro Cultural em Benfica- Lisboa) estava organizado com seis meses de antecedência e já contava com a confirmação de mais de 60 escritoras lusófonas espalhadas entre o Brasil e a Europa, além de uma exposição em homenagem aos 40 anos de profissão da escritora portuguesa Alice Vieira. Com a inesperada pandemia (covid-19), adiamos para maio de 2021. Mas ao produzir as coletâneas de poesia, prosa e conto, que marca esse evento, agendei o lançamento virtual para Setembro. Em tempos de quarentena comecei a promover iniciativas para manter todas as 234 participantes integradas e mostrar que estávamos todas juntas independente do local e da situação, passando e sentindo o mesmo. São autoras de infinitas realidades, que escrevem em língua portuguesa e participam de vários movimentos literários e sociais, que vivem em Portugal, Brasil, Bélgica, França, Suíça, Itália, Alemanha, Espanha, Londres, Luxemburgo, Croácia, Dinamarca, Irlanda e até Estados Unidos. Após alguns eventos virtuais para divulgação tive a ideia de não mais adiar. Vamos realizar além do dia 25 (data marcada para o lançamento das coletâneas) os dias 26, 27 e 28 de Setembro para agregar virtualmente todas as mulheres lusófonas, envolvidas no universo da escrita, separadas geograficamente e que contribuem para o empoderamento feminino, causas sociais e o fortalecimento da literatura em língua portuguesa.

Haverá uma homenagem às mulheres que se destacaram na literatura e na cultura luso-brasileira, entre elas, Alice Viera (portuguesa que celebra 40 anos de vida profissional), Maria Valéria Rezende (escritora brasileira e idealizadora do Movimento Mulherio das Letras), a escritora Laura Areias, portuguesa erradicada em Recife, falecida em 2019, com mais de 45 livros publicados. E também, Clarice Lispector e Amália Rodrigues pelos seus 100 anos de nascimento, simultaneamente, comemorados em 2020. Haverá um tributo a Olga Savary (escritora e poeta) e a todas as vítimas do coronavírus.

 

Que mais-valias se podem retirar deste evento? Quem pode assistir? Onde pode ser consultada a calendarização e a agenda do mesmo?

O evento acontecerá em LIVES no Facebook, transmitidas na página Mulherio das Letras Portugal e depois os vídeos estarão disponibilizados no Youtube, canal Mulherio das Letras Portugal, com convidadas a criarem os seus painéis com temáticas e participações de forma colaborativa e gratuita. Estamos ainda construindo a programação, mas devido ao interesse, acreditamos que será necessário mais um fim de semana. A programação é mesclada com diversos painéis em temas variados, interações musicais, depoimentos, leituras, sarau, declamações e palestras em vídeos, além do lançamento em videoconferência da coletânea Mulherio das Letras 2020 e de livros coletivos e individuais.

Como a ideia é despertar a atenção para a sororidade e para as diversas vozes da mulher na sociedade, muitas convidadas participam de outros movimentos literários que se seguiram em desdobramentos do Mulherio das Letras. Estamos todas unidas por uma única causa, que é enraizar a mulher como ser pró-activo, pensante, criador e em igualdade.

 

Como mulher e escritora que é, para além de produtora cultural e editorial, como sente este evento que agrega mulheres de todo o mundo em prol da partilha e da interajuda, e da divulgação intercontinental de tantas autoras envolvidas?

Desde adolescente, na escola, já era o centro de aglutinação dos colegas e amigos. Sempre acreditei que sozinha não se faz nada. Não somos uma ilha, e o aprendizado, o amadurecimento o crescimento pessoal, profissional e emocional só se faz através da troca de experiências, do convívio, do olhar e perceber a outro e o que acontece ao nosso redor. Utilizo essa percepção para enriquecer o meu processo criativo, enquanto autora, e também em todos os sectores da minha vida. E a mulher é muito especial, um ser múltiplo, com uma sensibilidade e força de superação que acredito que os homens não têm. Somos geradoras e mantenedoras da vida e estar entre mulheres, discutindo assuntos de nossos interesses, partilhando vivências, dando voz as minorias, as repressões, as injustiças e preconceitos, ganha-se muito mais eco do que sozinha. Sempre conduzi a minha vida, com parcerias, sou agregadora e não sei ser de outra forma. Seria muito mais simples apenas fazer o meu trabalho com o espaço tão acolhedor que encontrei entre as portuguesas na qual sou imensamente grata. Mas isso não me basta, não me preenche, acredito que se tenho as ferramentas nas mãos e o caminho, é também para puxar o outro, despertar, abraçar e caminhar junto. A mulher precisa disso, é inerente. Tem necessidade de falar, de se mostrar, de ser ouvida. E o Movimento Mulherio das Letras é uma porta aberta para isso. Um espaço de convivência, de conforto, de pedido de socorro, de divulgação, de gritos silenciosos que começam a ganhar força e sair da invisibilidade, por que encontra reflexos. São mais de sete mil brasileiras espalhadas pelo mundo, que agora com o Movimento Mulherio das Letras Portugal, estão começando a chegar também as portuguesas, angolanas, cabo verdianas, e quem sabe um dia, estarmos todas envolvidas fortalecendo a nossa cultura e língua portuguesa em todos os cantos do mundo. Claro que nada é perfeito e passamos por muitas puxadas de tapete, mas acredito que o sol nasce para todos e que quem se incomoda com o jardim alheio é porque não tem plantado e nem regado o seu próprio. Pois dá trabalho, dói, desgasta e consome imenso tempo. Jogo as sementes que colho das minhas flores e jogo no vento, para quem quiser também colher, plantar e regar. Não olho muito para os lados e nem para trás. Quero deixar na minha história esse registro de que tudo o que chegou até mim, foi aceito e eu disse sim, o resto, fica por conta de Deus. O mundo precisa muito dessa união, dessa solidariedade, aceitação e como expressão maior do Mulherio das Letras: sororidade.

 

O que gostaria de partilhar com o Escrevinhar / Sandra Ramos e seus leitores, que não tenha sido referido anteriormente?

Para o Escrevinhar, partilho o convite para que participem do Grupo do Facebook Mulherio das Letras Portugal, acompanhem a página e o nosso II Encontro, que vai ser muito rico, com diversas temáticas de mulheres que escrevem em língua portuguesa. É um tempo difícil para todos nós que estamos na Europa, mas, principalmente para quem vive no Brasil, na África e Estados Unidos. Estarmos conectadas, ouvindo ou falando, é uma forma também de aliviar as inquietações e angústias geradas pela instabilidade financeira e emocional causada pela pandemia. E tem uma frase da Maria Valéria Rezende que adoro e expressa muito o que penso, como chamada para os eventos do Mulherio das Letras Portugal:

Sabe aquela placa de ‘Meninas não entram’ do Clube do Bolinha? Minha vontade era escrever como slogan do Mulherio: ‘Meninos entram. Mas para escutar’”

E para quem acompanha a minha escrita, brevemente, teremos novidades, estou me organizando para isso.

E um lembrete: Mantenham-se protegidos e não esqueçam do distanciamento social, prolongar essa pandemia, ou não, depende de nós.

Gratidão Sandra Ramos e Escrevinhar

Bem-haja!

Acompanhe-nos! Participe!

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Nota editorial: esta entrevista foi respondida em Português do Brasil

 

AVC – Ataque Vil de Coração

Este texto é muito especial. Uma desconhecida desabafou comigo e disse-me: gostaria que escrevesse sobre isso. Um assunto delicado, íntimo. Um assunto que se esconde na alcofa. Agradeço a confiança, e espero que se reveja.

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Deito-me ao teu lado, nestes lençóis que já nos viram em melhores dias. Compus a cama com um cobertor extra, que as noites arrefeceram. Ou arrefeci eu, não sei. Ainda assim, vesti aquela camisa de noite de que costumavas gostar tanto, e que te fazia recolher ao nosso ninho mais cedo, para juntos saborearmos a promessa do calor que dos nossos corpos imanava. Éramos chama e lenha, calores tropicais, afrontamentos, quenturas. Conhecias cada centímetro do meu corpo, cada prega, cada desnível, cada curva e contracurva. Brincavas com os meus sinais, com os meus arrepios, com as covinhas que fazia aqui e além. Olhavas-me com o teu ar matreiro, de quem sabe ao que vem. Ansiavas por mim. Provocava-te, sabendo que era preciso muito pouco para te renderes. Fervíamos em pouca água, dois corpos em ebulição, e depois descansávamos, num aconchego morno, que nos adormecia.

Sinto saudades tuas. Sinto falta dos teus verões, do tempo em que corrias por mim acima, sedento. Quando fazias, de qualquer pequeno toque, o motivo para um toque maior, mais íntimo, mais valoroso. Quando não precisavas de razão ou ocasião, quando te enxotava, sabendo que te chamava ainda mais, fazendo-me rogada. Agora, deitamo-nos nesta cama que, de repente, ficou enorme. Já não te sinto, nem por casualidade, um braço que se estica, uma mão que se abre. Sei que aí estás porque te oiço respirar. Só por isso. Sinto muita raiva. De ti ou de mim, não sei. Às vezes penso o que faço aqui, se não me notas, não me desejas, nem sequer me abraças. Não tenho idade, tu não tens idade, para acharmos que romance é aquecer os pés na cama. Estico uma perna, a medo, encolhida em mim, e sinto aquela botija. Já nem para aquecer te sirvo. O inverno chegou a ti. Deixou-te encolhido, esmorecido, desanimado, sem vontade de olhar em redor. Mas eu ainda sou verão, ainda fervo por dentro, nesta doença de te querer. Ainda espero, numa fé que diminui a cada dia, que sintas o mesmo calor. Se tivesse alzheimer, eu poderia dizer que não te lembras já do que éramos. Assim, sei que te lembras, mas não te importas, como se fosse o desinteresse de ter visitado uma cidade a que não interessa voltar. Como se eu fosse uma cidade desinteressante a que não queres voltar. Falo-te nisso e encolhes os ombros, como se nada pudesses fazer. Corrijo, como se nada quisesses fazer. Se tivesses alguém, uma Ana, uma Vânia, uma Cátia, poderia perceber. Quase desejo que tenhas. Seria muito mais fácil para mim. Irritava-me, ofendia-te, abandonava-te, e esperaria por outro verão. Assim, olho para ti, neste misto de raiva e de pena, e não consigo deixar-te.

Não é justo. Desculpa, não é justo.
Por favor não me faças sentir fútil por querer amar-te, por querer que me ames. Esse acidente vascular cerebral, ou esse ataque vil de coração, como prefiro chamar-lhe, que quase te levou, devolve-te devagar, a fala, o movimento, mas não te devolveu a capacidade de amares, de me amares.
Esse ataque vil de coração, quase que nos leva, nessa incapacidade de nos amarmos. Não quero parecer fria, quando digo que fico feliz por teres recuperado grande parte de ti, mas não recuperaste parte de nós. Não quero que penses que não te amo, quando te falo, exigindo que me ames, numa frustração de te ser invisível. Perdoa-me se insisto, ou mesmo não insistindo, ficando no meu canto, esperando que um dia me olhes ruborizado, atrevido, como nos velhos tempos. O que faço a este amor que me queima? Não quero trair-te, quero amar-te. Não quero deixar-te, porque sei que não me traíste, antes tivesse traído. Não quero afastar-me, e deixar-te só, se bem que, pelo que vejo, talvez não sentisses a minha falta. Quando falo, foges, numa vergonha masculina de não saber resolver, de não me saber solucionar esta sarça ardente em mim. Então finges que não te importo. Talvez me canse, e vá embora, pensarás tu quando atingir o meu limite. Que me canse de ser ignorada. Que raiva dessa mania masculina que prefere fingir uma indiferença do que confessar que já não é capaz de corresponder ao meu verão extremo. Não te posso ajudar, a menos que confesses que precisas da minha ajuda. Eu sei que te esforças, que vais aos tratamentos, que tomas a medicação, mas sabes, eu queria que quisesses. Tão simples, isso, queria que me quisesses. Como eu te quero.

Já dormes. De lado, virado para o outro lado, o da janela. Respiras ruidosamente, nem um beijo de boa noite me deste. Já é habitual…
Eu ajeito o cobertor, que já vi que é o único calor que terei hoje, mais uma vez. Cinjo-o na cintura quando me volto de costas para ti, para não ficar de costas destapadas. Outrora, seria um convite. Hoje é apenas frio.
Mesmo no escuro, fecho os olhos para não ver aquilo em que nos tornámos. Aperto bem os olhos e, desejo sonhar. Aspiro a um tempo em que o teu Inverno termina, inicias o degelo, o rio cresce por entre a terra, e chega ao mar.